22.4.10

desci à cozinha ia a tempestade a começar. não sei se lá fora ou cá dentro deste único espaço que cada vez mais deixa de me pertencer. tinha a casa mergulhada no escuro interrompido pelos relâmpagos de uma chuva tempestuosa. descalça ,senti a tijoleira fria do chão da cozinha. fiquei parada à porta da cozinha a pensar em ti, a ver a tempestade que tanto me inquietava, pela janela, lá no fundo. que medo que me dá esta tempestade. virei costas à janela para abrir a porta do frigorífico. tirei o sumo e bebi, ainda com a porta aberta. olhei a cozinha agora iluminada pela luz fraca - quase tão fraca como eu - do frigorífico.
sinto a tua falta e tu não vens.
aproximei-me da janela ainda fechada e desejei como nunca ver-te a chegar. ver a tua sombra, ver o teu caminhar. esperei, esperei, passei muito tempo à espera. abri a janela, chamei por ti, fechei os olhos e gritei o teu nome. mais do que uma vez. cantei o teu nome à chuva, à luz e ao céu. a tudo aquilo que estava a acontecer. perguntei ás nuvens o que era de ti, perguntei às gotas que escorriam nos vidros da casas, perguntei às casas que deixavam com que essas gotas escorressem sobre elas, perguntei aos gatos escondidos debaixo dos carros e perguntei às pedras do chão: ninguém sabia, nada sabia. percorri com o olhar o território que me pertencia, todo aquele que eu via: nada, em parte nenhuma.
fechei a janela, que entretanto tinha aberto. subi as escadas do pódio dos sofridos, fiquei em primeiro. subi mais um pouco e saí ao terraço. em segundos houve uma fusão das tempestades que há pouco me pareciam tão distintas. abracei-me às nuvens e apertei-as muito de tanta raiva tinha da tristeza de tu não vires. juntei o meu corpo às nuvens que descarregavam no chão que também era eu, juntei-me às casas, aos gatos, às gotas, à chuva. descarreguei tudo em tudo. e também procurei por ti tão longe quanto podia fui até onde as nuvens se estendiam e até onde o vento - que era pouco nessa noite - me levou. cansei de procurar e de descarregar em mim própria o facto de tu não estares. deitei-me no chão cansado e gasto, cansada e gasta. a tempestade amainou e começou a amanhacer. veio o sol.
ficarei à espera.

3 comentários:

  1. para quando o regresso, Kina... também estou à espera... e tenho montes de saudades...

    ResponderEliminar
  2. a escrita mudou com a mudança do tempo ao longo do texto, gosto da forma como associas as coisas a ti e a ti às coisas :)

    ResponderEliminar
  3. Não te canses. Não te canses de um vir que sabes que está longe. Se souberes o seu sentido espera apenas. De chuva que não para.
    Mas um forte regresso marcará a diferença de uma maneira honrada em ti. Em algo que te pertençe, a que chamas de Vida. Que Será bem melhor quando saboreares o sabor do sucesso.

    ResponderEliminar