19.3.10

depois de um fim de dia como este, em que mais valia não ter chegado a casa, mais valia ter ido ao quarto de banho ou, quem sabe, ter ido ver televisão para a sala... talvez assim me safasse. o que acontece é que não o fiz, nada do que escrevi em cima. eu fiquei na cozinha depois de o meu pai ter começado a falar. e, sabes, aquela sensação de que não fazes a mínima ideia do que se fala? mas imagina um pouco mais que isso. era assim que eu estava no meio daquela discussão.
e, depois, fomos jantar a casa dos tios. depois de eu dizer que já vinha, nós fomos. e eu não estava lá, porque eu estou farta destas merdas. estou farta de não saber as coisas ou de saber demasiado. eu não quero nada disso.
deitei-me no quarto de minha prima que já tinha ido embora. deitei-me na cama de quem já não estava ali. e ninguém perguntou por mim, ninguém chamou, ninguém procurou. e essa foi uma daquelas alturas em que tu pensas assim: o mundo não se importa se eu estou ou não. as pessoas não notam a tua ausência, não sentem a tua falta. neste mundo já não há nada disso. e parece que nestes momentos as vozes ficam todas mais altas, ainda mais quando fechas os olhos e começas a sentir todo o teu corpo pesado e cansado de um mundo assim. é nessa altura do dia em que pensas que já não faz sentido estares viva porque isso não muda nada à tua volta. é nessas alturas que eu fico enervada. enervada porque não me chamam, por muito quieta que eu queira estar. enervada por pensar que não faz diferença eu estar ou não ali, no quarto, ou morta, numa cova. enervo-me por dentro e bato em mim mesma por pensar assim. e é nessas alturas que me apetece correr. correr muito muito muito. quando eu estou enervada não me canso. gosto de correr, faz-me sentir viva por sentir o meu coração a bater mais forte e por ouvir a minha própria respiração ofegante e por precisar de parar mas não o fazer e continuar sempre sempre. gosto de sentir o vento fresco na cara quente, e correr à chuva tem sempre um gosto especial, embora o faça poucas vezes. agora apeteceme correr, correr em frente e não para mais. correr para longe daqui, para longe de tudo. quero ir correr para o mar, quero correr mar a dentro.
hoje, apetece-me correr para longe daqui e não mais voltar.

3 comentários:

  1. gostei mesmo muito do paradoxo, e é um facto, também me dá muito dessas coisas, apetecer-nos estar sozinhos e inquietarmo-nos com o facto de não haver ninguém que esteja a dar pela nossa falta. mas, tudo se resolve, nem que seja com uma corrida. corre sozinha que a gente vai atrás, quer dizer, eu não, eu ando que se não coitado, por isso não corras para muito longe :)

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  2. eu noto a tua ausencia. corre, corre mas volta.

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  3. eu sei o que cada frase , cada palavra , cada letra que tu escreveste é , eu passo muito por isso , e também me isolo , mas isolar faz mal , torna nos pior por dentro , pois as ideias que fluem à pele podem se tornar em coisas bem estúpidas , e a levar a fazer aquilo que não queremos !

    só te peço , não me voltes a fugir Kina , nunca mais :)

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